
Quem tem mandioca quem tudo”. Esse é o título do livro organizado pelos professores da UNEB Eduardo Guimarães (Design) e Francisco Guimarães (História), composto por ensaios que resgatam a trajetória da mandioca desde sua domesticação, há cerca de 10 mil anos, pelos povos Tupi-Guarani, até suas ressonâncias na contemporaneidade do Design Permacultural.
Recentemente, a obra ganhou vida em uma série documental que explora, de forma sensível e profunda, as múltiplas camadas desta raiz milenar. A produção está disponível no Canal Design_uneb , no Youtube.
“Nosso objetivo é fazer com que livro inspire não só pela leitura, mas por outras linguagens. A mandioca é um elo entre design, território e cuidado com a vida. Transformamos isso em audiovisual para que o público reflita sobre como comer, viver e projetar de maneira mais justa”, afirma o professor Eduardo Guimarães , idealizador da iniciativa.
No primeiro episódio, gravado em Palmeiras (Distrito de Caeté-Açu, Vale do Capão), e o percurso começa com o relato de vivência do médico neuropata Augusto Dr. Áureo Augusto Caribé de Azevedo. Entre lembranças afetivas e reflexões sobre saúde, espiritualidade e agroecologia, Dr. Augusto compartilha como a presença da mandioca está entrelaçada ao seu cotidiano. O episódio revela admiração pelo trabalho dos ancestrais e a visão de um futuro que não abre mão desse saber: a mandioca como elo entre culturas ancestrais e tecnologias sustentáveis.
A feira livre de Caeté-Açu, cenário do bate-papo, reúne agricultoras e agricultores que
trocam saberes sobre sazonalidade, práticas sustentáveis e consumo consciente.
Entre bancas de farinha de mandioca, puba e café torrado na hora, a feira torna-se
palco de experiências que reforçam a importância de valorizar quem produz e de
redescobrir os ritmos naturais de plantio e colheita.
“A mandioca é muito mais do que um alimento ela representa uma cultura, uma
sabedoria ancestral que está sendo esquecida. Quando li o livro, me emocionei. Vi ali
um convite para a gente retomar um caminho mais sensível, mais atento à natureza e
às pessoas que cuidam da terra. A mandioca, como dizem alguns povos, é um ser
encantado. E eu acredito nisso”, destaca Áureo Augusto, médico e naturopata
residente no Vale do Capão, que assina o prefácio da obra. Ao longo do episódio, são
revisitados temas centrais do livro:
Ancestralidade e simbologia: a mandioca não é apenas alimento, mas um “ser
encantado” com consciência própria, parte de mitos e rituais indígenas;
Agricultura ancestral vs. monocultura: o perigo das monoculturas industriais e dos
agrotóxicos, contraposto ao solo fértil gerado por técnicas indígenas como a terra
preta;
Design permacultural: proposta de uma prática de design que integra agricultura e
paisagem, respeitando ciclos naturais e promovendo autonomia dos povos do campo.
O projeto da série de podcast integra o plano pedagógico, da disciplina Tópicos
Especiais em Design e Sociedade (TED). Os estudantes realizam a leitura crítica do
livro, elaboram roteiros, produzem os programas no estúdio do LabDesign e vão a
campo para registrar depoimentos e práticas locais.
Para Antonia Talita Pereira de Souza, estudante do 2º semestre de Design da UNEB
e integrante do projeto de extensão, a experiência tem sido transformadora:
Nesse projeto, tivemos a oportunidade de mergulhar em um tema que, à primeira vista, pode parecer incomum, mas que nos leva a reflexões profundas sobre ancestralidade, sustentabilidade e o papel do design. A leitura do livro e as discussões no grupo têm me ajudado a repensar o tipo de designer que desejo ser: não alguém que apenas cria novos produtos e estimula o consumo, mas sim uma profissional comprometida com práticas sustentáveis e com o cuidado ao meio ambiente. A cada encontro, ampliamos nossa consciência e desenvolvemos um olhar mais crítico e sensível sobre o impacto do nosso trabalho no mundo.”
Em breve, novas gravações levarão o olhar para comunidades quilombolas e
assentamentos de reforma agrária, ampliando o diálogo entre pesquisa acadêmica e
conhecimentos tradicionais.